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Por Nilvanio FallerCofundador da Nexta e fundador da Mobwe Tecnologia

Da média do setor ao Nível 1: o que fazer antes de o banco fechar a tabela.

Inventário verificado, coordenada da atividade, CAR validado e certidões — em que ordem, com que esforço, e o que cada item muda na linha em que a empresa aparece.

Série GRSAC · parte 2 de 6 — o que o banco vai publicar sobre quem ele financia

O texto anterior desta série descreveu a tabela. A partir de 2027, o banco publica as emissões financiadas por setor e, ao lado, a qualidade do dado: Nível 1 para emissão reportada pela empresa e verificada por terceira parte, Nível 2 para reportada sem verificação, Nível 3 para estimada por proxy a partir do setor.

Este texto é sobre o caminho entre o Nível 3 e o Nível 1. Ele é mais curto do que parece, e quase todo feito de coisas que a empresa já tem.

O que decide o nível

Dois documentos. O inventário de emissões e a declaração de quem o verificou.

O inventário segue o GHG Protocol Corporate Standard, que é a referência que o próprio leiaute do Banco Central nomeia. No Brasil, o caminho mais percorrido é o Programa Brasileiro GHG Protocol, da FGVces, que publica os inventários no Registro Público de Emissões e os classifica em três selos: Bronze, para inventário parcial; Prata, para inventário completo de Escopos 1 e 2, sem verificação; Ouro, para inventário completo verificado por organismo de verificação independente. O ciclo mais recente do Registro fechou com 757 organizações.

A correspondência com a tabela do banco é direta. Selo Prata é o que o banco vai classificar como Nível 2. Selo Ouro, Nível 1. Nenhum selo, Nível 3 — a média do setor.

A verificação é feita por um organismo de verificação segundo as especificações do Programa e a norma ABNT NBR ISO 14064-3, e termina numa declaração que atribui ao processo um nível de confiança, limitado ou razoável, e descreve o escopo e as exclusões. Esse documento é o que separa os dois níveis de cima. Sem ele, o melhor inventário do mundo é Nível 2.

A ordem que economiza tempo

A sequência importa porque os itens têm prazos diferentes, e o mais lento não é o que parece.

Primeiro, o inventário de Escopos 1 e 2. O dado de atividade já existe: litros de combustível no sistema de abastecimento, quilowatts-hora na conta de energia, quilômetros rodados no controle de frota, gás refrigerante nas ordens de manutenção. O trabalho é juntar, aplicar o fator com versão e procedência, e guardar a evidência de cada lançamento. Escopo 3 entra onde for material, e pode entrar depois; o Programa aceita inventário completo sem ele.

Segundo, a verificação. O organismo de verificação precisa ser contratado, receber o inventário com memória de cálculo e evidências, fazer perguntas, visitar ou amostrar, e emitir a declaração. Isso leva semanas, e os organismos têm fila no primeiro semestre, quando todo mundo fecha o ano anterior. Quem contrata em outubro para o inventário do ano corrente chega a janeiro com data marcada.

Terceiro, a coordenada. Latitude e longitude de cada unidade produtiva e, no agro, da atividade financiada — não da sede. É o mesmo dado que o regulamento europeu antidesmatamento pede e que a análise de risco físico usa. Uma vez levantado, serve às três tabelas.

Quarto, o CAR. Verificar no SICAR se o cadastro de cada imóvel vinculado a crédito rural está validado pelo órgão competente, e documentar qualquer supressão de vegetação nativa desde 31 de julho de 2019 com a autorização correspondente. O banco publica o percentual de área com CAR validado e a área suprimida; a empresa decide se entra na coluna da supressão verificada ou na outra.

Quinto, as certidões. Situação da empresa e dos controladores perante Ibama, ICMBio e Cadastro de Empregadores. Multa dos últimos dez anos acima de R$ 5 mil aparece na tabela do banco. Multa cancelada, extinta ou suspensa, não — e a diferença entre as duas situações costuma ser um processo administrativo que ninguém acompanhou.

Sexto, o município. A plataforma AdaptaBrasil, do MCTI, é pública. O índice de ameaça de escassez hídrica e de inundação que o banco vai usar para cada município da operação está lá, hoje, para qualquer um consultar. Vale olhar antes de o banco olhar. O índice é um modelo: em maio de 2024, boa parte dos municípios gaúchos sob água aparecia na plataforma com risco baixo de inundação. A empresa que conhece o histórico real do próprio pátio tem argumento que o índice não tem — se tiver registrado.

O que não adianta fazer

Comprar crédito de carbono para melhorar a linha. A tabela de emissões financiadas é de emissão bruta, e a tabela do plano de transição separa a redução bruta da líquida, sem permitir que o crédito abata a primeira. A compensação pode aparecer no plano de transição, na linha da redução líquida; a coluna de emissões financiadas não a enxerga.

Mandar o relatório de sustentabilidade em PDF. O organismo de verificação não verifica PDF; verifica a planilha, os fatores, as notas fiscais e as leituras. Inventário sem memória de cálculo não é verificável, e inventário não verificável é Nível 2 na melhor hipótese.

Informar a sede. A tabela agro declara em qual nível de granularidade a exposição foi alocada, e a sede é o último deles.

Quais dados e evidências vão ser necessários

  • Inventário GHG Protocol, Escopos 1 e 2 completos, com fator identificado por fonte e ano e evidência por lançamento. Muda de Nível 3 para Nível 2.
  • Declaração de verificação por organismo independente, conforme ISO 14064-3, com nível de confiança e escopo. Muda de Nível 2 para Nível 1.
  • Coordenada geodésica por unidade e por atividade financiada. Muda a granularidade declarada pelo banco e alimenta o risco físico.
  • CAR validado e histórico de supressão documentado. Muda de coluna na tabela social e ambiental.
  • Certidões e andamento de autos de Ibama, ICMBio e MTE, da empresa e dos controladores.
  • Registro do histórico de eventos climáticos por unidade, com data e duração. Fica fora da tabela do banco e dentro da conversa com ele.

Como começar

Pelo inventário de Escopos 1 e 2 do ano corrente, com a verificação já contratada. É o único item da lista que precisa de alguém de fora e, por isso, o que define o calendário.

Os demais são levantamento interno: coordenada, CAR, certidões, município. Cabem em paralelo, e nenhum deles espera o inventário ficar pronto.

A tabela do banco tem data-base de 31 de dezembro. O que entra nela é o último inventário verificado que a empresa tem. Para a maioria das empresas brasileiras, hoje, esse documento não existe — e a média do setor vai ocupar o lugar dele até que exista.

Conteúdo informativo, atualizado em 5 de outubro de 2026. A Resolução BCB 586 entra em vigor em 2027 com implementação gradual por segmento; prazos de verificação variam por organismo. Não substitui parecer técnico ou jurídico.

Fontes

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