Pular para o conteúdo
nexta
PT

Por Daiane FallerCofundadora e diretora técnica da Nexta

Escopo 3 sem caixa-preta: como sair do gasto estimado

É onde costuma estar a maior parte da emissão. É também a parte que ninguém sabe explicar em detalhe.

A maior parte das empresas que já fez inventário conhece a sensação: os Escopos 1 e 2 fecham com precisão razoável, e o Escopo 3 aparece como um bloco enorme, calculado por gasto, que ninguém sabe explicar em detalhe.

O incômodo é legítimo, porque é justamente no Escopo 3 que costuma estar a maior parte da emissão. É também a parte que o cliente pergunta.

O que mudou

Durante anos bastou declarar Escopo 3 por estimativa. O que mudou foi quem pergunta. Grande comprador passou a exigir dado do fornecedor, questionário de cadeia virou rotina, e frameworks de relato passaram a cobrar qualidade do dado, não só o número.

Estimar por gasto continua sendo um método válido. O problema é ficar nele: quando a emissão é calculada a partir do valor pago, reduzir emissão e reduzir custo viram a mesma conta, e a empresa perde a capacidade de mostrar melhoria real.

O que muda na operação

A saída não é substituir tudo de uma vez. É escolher onde a granularidade compensa.

O caminho que funciona tem três degraus. O primeiro é o rastreio: calcular tudo por gasto, mesmo grosseiro, só para descobrir onde está o volume. O segundo é escolher: nas categorias que concentram a emissão, trocar gasto por dado físico, que é quantidade de material, quilômetro rodado, quilowatt-hora, tonelada transportada. O terceiro é o específico: nos fornecedores que mais pesam, usar o fator do próprio fornecedor, quando ele tiver.

Fazer isso na categoria errada é desperdício. Uma categoria que responde por dois por cento da emissão não muda o resultado por mais preciso que o método fique.

Quais dados e evidências vão ser necessários

  • A lista de categorias que se aplicam. São quinze no padrão, e quase nenhuma empresa tem as quinze. Declarar quais não se aplicam, com o motivo, vale tanto quanto calcular as que se aplicam.
  • O dado de atividade por categoria, com a unidade e a origem. Compra de material, transporte contratado, viagem, resíduo, uso do produto vendido.
  • O método usado em cada uma, declarado. Gasto, média física ou dado do fornecedor. Misturar métodos é normal; não declarar qual foi usado onde é o que quebra a comparação no ano seguinte.
  • A evidência: a nota, o contrato, o manifesto, o relatório do fornecedor.
  • A qualidade do dado, registrada. Saber que uma categoria está estimada é informação, não defeito. Fingir que ela é precisa, sim.

O erro que custa mais caro

Trocar o método de uma categoria entre um ano e o outro sem registrar a troca. O número muda, a empresa não sabe dizer se a variação foi redução real ou mudança de metodologia, e a série histórica inteira perde valor. Quando a memória de cálculo guarda o método com data e motivo, a comparação continua possível.

As categorias que costumam concentrar tudo

Varia por setor, e essa variação é a informação mais útil do exercício.

Em indústria e alimentos, a categoria de bens e serviços comprados costuma dominar sozinha, porque é onde entra a matéria-prima. Em varejo e moda, ela também domina, com o uso do produto vendido aparecendo forte quando o produto consome energia. Em transporte, a conta se divide entre o transporte contratado a montante e a jusante, e a distinção entre os dois depende de quem paga o frete, não de quem dirige o caminhão. Em serviços, viagem de negócio e deslocamento casa-trabalho pesam mais do que a intuição sugere.

Saber isso antes de coletar economiza meses. A alternativa é pedir dado para trezentos fornecedores e descobrir depois que quinze respondiam por oitenta por cento.

Pedir dado ao fornecedor sem travar a relação

O erro clássico é mandar um questionário longo para toda a base ao mesmo tempo. A taxa de resposta despenca, o time comercial reclama, e o que volta vem em dez formatos diferentes.

Funciona melhor o contrário: começar pelos poucos que concentram a emissão, pedir pouca coisa e pedir na unidade que o fornecedor já tem. Ele sabe quantas toneladas entregou. Ele raramente sabe o fator de emissão do próprio processo. Pedir o que ele tem, e aplicar o fator do nosso lado, é o que faz o dado chegar.

O que fazer com a categoria que não dá para calcular

Sempre sobra uma. O fornecedor não responde, o dado não existe, o processo não é rastreado. A tentação é deixar em branco ou chutar um número plausível.

As duas saídas são ruins. Deixar em branco faz o total parecer menor do que é, e alguém vai comparar esse total com o de um concorrente que declarou. Chutar sem dizer que chutou transforma incerteza em falsa precisão, que é pior, porque ninguém sabe onde não confiar.

A saída honesta é declarar a categoria, registrar o método usado, marcar a qualidade do dado como baixa e escrever o que falta para melhorar. Isso vale numa verificação, e vale mais numa conversa com cliente do que um número redondo sem procedência.

Como começar

Pelo rastreio, mesmo grosseiro. Um Escopo 3 inteiro calculado por gasto, com as categorias declaradas e a qualidade do dado anotada, vale mais que três categorias perfeitas e doze ausentes. Ele mostra onde vale investir precisão, que é a única pergunta que importa no começo.

Fontes

Explorar Cadeia de Valor →

← Todas as análises