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Por Nilvanio FallerCofundador da Nexta e fundador da Mobwe Tecnologia

O município da operação entra na tabela do banco. A sede só entra quando é o único dado.

As tabelas de seca e de chuva intensa do GRSAC cruzam cada exposição com o índice de ameaça do AdaptaBrasil, no cenário mais severo, hoje e em 2030. O endereço que a empresa informou decide em que célula ela cai.

Série GRSAC · parte 4 de 6 — o que o banco vai publicar sobre quem ele financia

Duas tabelas do Relatório GRSAC não têm número em tCO₂e. Têm cor. A CRFR2 Seca e a CRFR2 Chuva Intensa classificam a sensibilidade da carteira do banco em seis níveis, de branco a vermelho, para cada região do país e para dois horizontes: o presente e o primeiro horizonte projetado.

A cor de cada célula sai de um cálculo simples. Para cada município onde o banco tem operação, um índice de ameaça entre 0 e 1; a exposição em reais multiplicada por esse índice; a soma por região dividida pela exposição total. Acima de 0,8, vermelho.

O índice não é do banco. É do AdaptaBrasil, plataforma pública do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que cobre os 5.570 municípios brasileiros. Qualquer empresa pode consultar hoje a cor do próprio município.

O que mudou

A Resolução BCB 586 manda que, a partir de 2027, as instituições dos segmentos S1 a S3 publiquem as duas tabelas. A de seca abre a carteira por setor econômico — energia elétrica, agricultura, pecuária, papel e produtos florestais, bebidas, alimentos, química, derivados de petróleo e biocombustíveis, metalurgia, mineração — e por região. A de chuva intensa abre por natureza da contraparte, pessoa física e pessoa jurídica, e por região.

O índice usado é o de ameaça: escassez hídrica para a seca, inundações, enxurradas e alagamentos para a chuva. O horizonte presente usa o dado atual da plataforma; o horizonte projetado usa o cenário SSP5-8.5, o de emissões mais altas do IPCC, no primeiro ano projetado disponível — hoje, 2030, e o leiaute manda o banco escrever o ano no cabeçalho em vez de "primeiro horizonte projetado".

A regra de alocação geográfica é o que interessa a quem toma crédito. Para financiamento e arrendamento, o banco é obrigado a usar o município da atividade financiada. Para as demais modalidades, onde o ativo não está identificado, ele usa a sede do cliente ou uma proxy interna. E declara, em nota à tabela, qual nível de granularidade usou: município da atividade, proxy ou sede.

Na tabela agro, a CRFR1 Agro, a escala tem quatro degraus e o primeiro é a localização geodésica da atividade financiada. O último é a sede.

Quem é afetado

Qualquer empresa com operação financiada em município que a plataforma pinta de laranja ou vermelho, em qualquer um dos dois horizontes. Na tabela de seca, a cor depende do município onde a atividade está, qualquer que seja o CNAE que deu a linha.

O peso relativo dos dois riscos no Brasil está medido. O levantamento da Confederação Nacional de Municípios sobre 2013 a 2025 contabiliza R$ 785,4 bilhões em prejuízos aos municípios, dos quais R$ 458,3 bilhões por seca e estiagem — quase 60%. A tabela de seca do GRSAC lista dez setores; a de chuva lista dois tipos de contraparte. O desenho segue o dado.

E há uma consequência de prazo. A CRFR1, da mesma série, abre a carteira por vencimento remanescente: até cinco anos, de cinco a dez, de dez a vinte, acima de vinte. Um contrato de dez anos assinado em 2027 vence depois de 2030. O banco vai olhar a célula de 2030 para decidir sobre ele.

O que muda na operação

O índice se aplica ao município inteiro, qualquer que seja a planta. Uma unidade em terreno alto, com drenagem resolvida, num município que a plataforma classifica como alto risco de inundação, recebe a cor do município. Uma unidade com reservação própria num município de escassez hídrica alta, idem. A empresa não altera o índice.

O que ela altera é duas coisas.

A primeira é o que o banco sabe sobre onde a operação está. Se o contrato é de financiamento, o município da atividade é obrigatório; se é outra modalidade, a sede entra por padrão. Uma empresa com sede em município verde e fábrica em município vermelho aparece verde até o dia em que o banco pede a coordenada — e a situação inversa pinta de vermelho uma fábrica que não corre esse risco. Informar a localização de cada unidade financiada resolve os dois casos.

A segunda é a evidência de resiliência da própria unidade. A tabela de cores não tem lugar para ela; o lugar é a avaliação de concentração de risco do banco, a Tabela CRFRB, que pede efeitos potenciais sobre o desempenho e procedimentos de mitigação. É nela que entra o histórico de eventos no endereço, a obra de drenagem, a reservação, o seguro, o plano de contingência. O texto anterior desta série sobre risco climático descreveu as quatro perguntas que fazem um risco virar decisão; são as mesmas que o gerente de risco do banco vai fazer quando a célula ficar laranja.

Um lembrete sobre o índice. Em maio de 2024, boa parte dos municípios gaúchos sob água aparecia na plataforma com risco baixo de inundação. O AdaptaBrasil é uma ferramenta de planejamento de médio e longo prazo, por desenho; o próprio MCTI diz isso. O banco vai usá-lo mesmo assim, porque o leiaute manda. A empresa que tem o histórico real do próprio pátio registrado — datas, duração, perda — tem o único argumento que o índice não contém.

Quais dados e evidências vão ser necessários

  • Lista de unidades e atividades financiadas com município e coordenada geodésica. É a mesma coordenada do EUDR e da tabela agro.
  • Consulta ao AdaptaBrasil registrada para cada município: seca e chuva intensa, presente e 2030, com data da consulta. A plataforma muda; o registro prova o que se sabia quando.
  • Histórico de eventos por unidade: data, tipo, duração da interrupção, perda estimada. Dez anos, se houver.
  • Medidas de adaptação implantadas, com evidência: projeto, nota, laudo, data.
  • Cobertura de seguro por unidade e o que ela exclui.
  • Para os dez setores da tabela de seca: fonte de água de cada unidade, outorga, volume e dependência de terceiros.

Como começar

Pela consulta. Município por município, seca e chuva, hoje e 2030. Leva uma manhã e responde a pergunta que decide tudo o mais: quais unidades vão aparecer em laranja ou vermelho na tabela de algum banco.

Para essas, montar a ficha de resiliência antes da renovação. Para as demais, informar a coordenada, para que a sede não decida por elas.

Conteúdo informativo, atualizado em 5 de outubro de 2026. Os índices do AdaptaBrasil e seus horizontes são atualizados pelo MCTI; a Resolução BCB 586 entra em vigor em 2027 com implementação gradual por segmento. Não substitui parecer técnico.

Fontes

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