Por Daiane Faller
Quanto custa não agir: quantificar risco climático sem fingir precisão
A conta que trava o assunto na área técnica é a mesma que o destrava na mesa do orçamento.
Existe um número que costuma encerrar a discussão sobre se risco climático é assunto de longo prazo. No último ciclo do CDP, as empresas reportaram US$ 30,6 bilhões em riscos já materializados — não projeção, não cenário: prejuízo do ano. E quase 4 mil empresas somaram US$ 3 bilhões em perdas atribuídas especificamente a eventos climáticos extremos em 2025.
Olhando adiante, a mesma base indica alta probabilidade de US$ 1,24 trilhão em perdas acumuladas até 2030, e US$ 1,77 trilhão até 2040. Cerca de um terço das perdas projetadas até 2030 é risco físico.
Esses números vêm de mais de 11 mil empresas grandes e médias, cobrindo dois terços da capitalização de mercado global. É a base mais qualificada que existe. E ela está subestimando o problema — por um motivo que dá para corrigir.
O que mudou
Descrever risco deixou de bastar. O IFRS S2 pede efeito financeiro atual e antecipado, e a régua do mercado seguiu junto: 71% das empresas já declaram quais métricas financeiras estão expostas ao risco ambiental, e a mais citada é receita, apontada por 47%.
O processo também amadureceu. Em 2018, 59% das empresas tinham processo de avaliação de risco ambiental; em 2025, são 88%. As que identificam riscos substantivos passaram de 46% para 80%.
Identificar virou padrão de mercado. Dizer quanto, ainda não.
O viés que quase ninguém corrige
Aqui está o achado mais útil de todos, e ele é técnico.
Mais da metade das empresas expostas já estima efeito financeiro para pelo menos um horizonte. Mas quatro vezes mais empresas reportam valores de curto prazo do que de longo prazo. Quantificar o que está longe é mais difícil, então simplesmente não se quantifica — e o total agregado sai menor do que a exposição real.
Isso tem uma consequência prática desagradável. A empresa que só quantifica o curto prazo produz um número que parece administrável e uma decisão de investimento que nunca se justifica, porque o benefício de longo prazo ficou fora da conta. A subestimação não é neutra: ela empurra a decisão para o "não agora".
Há um contrapeso no mesmo movimento. O horizonte longo declarado pelas empresas subiu de uma mediana de 15 anos em 2018 para 25 anos em 2025 — sinal de que a vida útil dos ativos começou a entrar na análise.
Como se chega a uma faixa
A objeção mais comum é que não dá para calcular. Dá, em quatro passos, e nenhum deles exige modelo climático próprio.
1. Exposição com endereço. Qual unidade, qual fornecedor, qual rota, qual contrato. A conta é sempre sobre um objeto, nunca sobre "a empresa".
2. Frequência e severidade observadas. Quantas vezes o evento já aconteceu naquele endereço nos últimos dez anos, e quanto tempo a operação levou para voltar. Isso está no histórico da própria empresa, no registro do seguro e no boletim do município. É o degrau que a maioria pula para ir direto a projeção climática — e é o único degrau que não depende de ninguém de fora.
3. Conversão em dinheiro. Margem de contribuição por dia parado, receita dependente daquele cliente ou produto, custo de reposição do ativo, custo do frete alternativo, variação do prêmio de seguro. Para risco de transição, a conversão é mais direta: emissões da operação multiplicadas por uma faixa de preço de carbono, mais o custo de perder um cliente que exige dado.
4. Faixa, horizonte e cenário declarado. Um valor baixo e um alto, com o horizonte explícito e a fonte do cenário nomeada. O IFRS S2 aceita valor único ou faixa. Faixa com método declarado vence número redondo sem procedência em qualquer verificação.
Exemplo ilustrativo, com dados fictícios: um centro de distribuição alagou duas vezes em oito anos, com quatro dias de parada em cada evento. A margem de contribuição diária da operação atendida por ele é de R$ 180 mil. A exposição histórica direta fica em torno de R$ 720 mil por evento, sem contar multa contratual por atraso nem perda de estoque. Isso é uma faixa defensável, construída sem nenhum dado que a empresa já não tivesse.
O outro lado da conta
Quantificar risco sem quantificar a resposta produz um relatório pessimista e nenhuma decisão. As duas contas andam juntas.
Nos dados do CDP, cada dólar investido em resposta a risco ambiental retorna, na mediana, cerca de US$ 8 em perdas evitadas, economias e ganhos de eficiência. Em iniciativas de redução de emissões, o retorno médio é de US$ 2,4 por dólar, chegando a US$ 7 ao longo da vida útil em alguns casos: 69% dessas iniciativas são lucrativas e 41% se pagam em menos de três anos.
Duas ressalvas honestas sobre esses múltiplos. Eles vêm da estimativa das próprias empresas sobre o impacto potencial dos riscos, variam muito dentro de um mesmo setor, e o cálculo assume que a medida de mitigação funciona integralmente. Servem para mostrar a ordem de grandeza do argumento, não para prometer retorno.
Quais dados e evidências vão ser necessários
- Histórico de interrupções por unidade, com data, duração e causa. É a base da frequência.
- Margem de contribuição por dia, por unidade ou linha. Sem isso não há conversão em dinheiro.
- Concentração de receita por cliente, produto e contrato, com a cláusula de penalidade quando existir.
- Inventário de emissões, que é o multiplicando da conta de transição.
- O cenário e a fonte, com horizonte declarado e premissas registradas.
- A faixa, com data e responsável. Estimativa sem dono e sem data não sobrevive ao próximo ciclo.
Como começar
Por um risco só. O mais recorrente, aquele que todo mundo na operação já cita de cabeça.
Faça a conta dele até o fim: exposição, frequência, dias parados, margem, faixa, horizonte. Depois leve a mesma planilha para o segundo. O método se repete, e é ele que vira o ativo — não o número.
E quantifique o longo prazo mesmo com incerteza alta, marcando a incerteza. É a única forma de a decisão de investimento disputar orçamento em igualdade com as outras.
Fontes
- CDP. Disclosure Dividend 2026, 17 de junho de 2026. Base de mais de 11.260 empresas grandes e médias que reportaram em 2025, cobrindo cerca de dois terços da capitalização de mercado global
- CDP. Extreme weather risk across corporates, cities and financial systems — perdas financeiras reportadas por eventos climáticos extremos em 2025
- IFRS Foundation. IFRS S2 Climate-related Disclosures — efeitos financeiros atuais e antecipados; informação quantitativa como valor único ou faixa
- IFRS Foundation. Disclosing information about anticipated financial effects applying ISSB Standards, 2025